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Análise | Ancestors: The Humankind Odyssey

Disponível para PlayStation 4, Xbox One e PC

Ancestors: The Humankind Odyssey é um jogo sobre descobertas, sobre explorar e entender suas capacidades e limitações. É também um jogo de repetição, muita repetição, afinal evolução não é algo que acontece do dia para noite. Foram necessários milhares de anos e muitos macacos mortos até entender como deixar de ser caça para se tornar o caçador.

O título chegou ao PC, com exclusividade via Epic Games Store em agosto passado, mas somente agora, no dia 6 de dezembro, chegou ao PlayStation 4 e Xbox One. Sua estreia em novas plataformas chega com uma pequena atualização, que também está disponível na versão para PC, que provém algumas melhorias que adicionam melhor ritmo e dinamismo entre as mecânicas do jogo, como melhores tutoriais e presença de objetivos principais que direcionam de forma mais otimizada o foco do jogador.

A produção do jogo pertence ao estúdio canadense Panache Digital Games, encabeçado pelo game designer Patrice Désilets, famoso no mundo dos jogos eletrônicos por ser um dos criadores da franquia Assassin’s Creed, algo que já mencionei neste post semanas atrás. A distribuição de Ancestors ficou a cargo da Private Division, que recentemente também foi publisher do aclamado The Outer Worlds, assim como também distribui os jogos da série Kerbal Space Program.

Passado muito, muito distante

Ancestors: The Humankind Odyssey começa há milhões de anos no passado, em uma África ainda coberta por uma densa selva. Os dinossauros já foram extintos há um bom tempo e os mamíferos reinam no planeta. Assim uma certa espécie de primata, nosso descendente científico, começa a aprender novos truques de uma forma sem precedentes no planeta. Eis aqui o primeiro passo para o surgimento da humanidade.

Antes da aventura iniciar, alguns avisos são emitidos. O jogo tem inspiração e bases científicas, mas tem liberdades para não precisar seguir à risca alguns destes fatos, até porque certos atos dependerá dos jogadores aprenderem ou não em suas jornadas. Porém no geral tem base científica e estudos que replicam o que pensamos ser o ambiente africano e os animais de tal período em si. Conforme as eras vão avançar, mudanças nesse bioma irão ocorrer, deixando a úmida selva para um ecossistema mais quente e seco. Novas espécies vão surgir ao longo dos séculos, então não espere ver toda a fauna nas primeiras horas do jogo.

Outro aviso curioso é que o jogo lhe diz que irá ensinar o básico, mas não tudo. Muito da experiência de Ancestors vem da experiência por testes e descobertas. Você vai aprender como lidar com predadores, mas não em sua totalidade. Esquivar é o básico, mas só na tentativa e erro para aprender como intimidar e até mesmo matar uma destas feras. De mãos vazias não é possível, isso posso lhe garantir. As primeiras horas do jogo é muito sobre descobrir e testar. Assimilar novos conhecimentos, aprender a lidar com situações e fracassar. Pois fracassar também é aprender.

Ancestors: The Humankind Odyssey é um jogo de sobrevivência e exploração. Você precisa dormir, comer e beber. Machucados como sangramentos podem matar. Mal estar por ingestão de alimentos tóxicos ou que seu organismo não assimila bem farão o jogador andar meio cambaleando, com a visão turva, por vários minutos. Não dormir faz com que seu macaco feche os olhos, deixando a tela preta por alguns segundos. Não comer ou beber o faz perder vigor e saúde, levando-o a morte. Ingestão de água parada por lhe fazer mal. Frio ou calor intenso também vão prejudicar seu vigor para andar, saltar, correr, escalar e afins.

Macaco vê, macaco faz

A exploração se dá sob o objetivo de ganhar conhecimento. Macaco vê, macaco faz. Essa é a ideia principal do jogo. Aprender novas coisas que serão ensinadas aos seus filhotes, aos membros do seu clã e que irão sobreviver aos séculos, fazendo que novos primatas aprender mais de acordo com aquilo que seus ancestrais sabiam fazer e transmitiram ao longo de gerações.

O começo de Ancestors é super recompensador. Tudo é desconhecido, tudo é novidade. O jogador tem seu seu poder o instinto de reconhecer pontos no ambiente em que ele pode aprender ou interagir com coisas desconhecidas. Você poder ver uma fruta em uma árvore, e aí ir até lá e ver se pode comer. Talvez você passe mal, talvez não. É preciso assimilar esse conhecimento.

Você aprende que um galho seco pode virar uma vareta se passar a sua mão pelo mesmo, limpando os galhos menores sobressalentes. Com uma pedra esse galho pode virar uma lança. E se bater duas pedras? Ou talvez uma pedra em um coco? Estes são os primeiros passos. Você não sabe fazer nada disso, não sabe o resultado destas equações. É preciso testar e aprender.

Comidas diferentes geram efeitos diferentes. Há comidas que trazem benefícios. Seu primeira está, por exemplo, longe de saber fazer fogo, então como lidar com o frio? Há uma plantinha que lhe ajuda. No topo das árvores você irá achar uma espécie de pinha que pode cicatrizar sangramentos. No início os macacos só se alimentavam de plantas e certas frutas, mas se você insistir, sobre o risco de alguns indigestões, logo sua geração pode aprender a metabolizar outros tipos de alimentos, como ovos, insetos e até mesmo a carne cru. Não espere conseguir fritar um ovo ou um bife há milhões de anos longe da invenção da frigideira. Vai por mim.

Porém um mundo de descobertas vem com um preço. Explorar essa África do passado não é simples. Predadores espreitam por todas as partes. Inicialmente espere encontrar tigres de sabre mortais, além de venenosas cobras, pequenas e gigantes, além de imensos crocodilos prontos para lhe caçar nos pântanos da floresta. Morrer faz parte do ciclo do jogo. Quando isso acontece, você assume outro membro de seu clã, já que macacos andam em bandos. Se todos os adultos morrem, sobram os filhotes, e aí você precisa sobreviver até achar outro membro adulto (normalmente o jogo lhe arranja um nas proximidades de onde estiver). Se você matar todos os filhotes, aí sua linhagem chega ao fim e tudo precisa ser reiniciado. Porém isso não é algo fácil de acontecer.

Primeiro porque é possível cruzar os macacos e ter mais filhotes. Novos membros também podem ser encontrados e convidados para entrar em seu bando, normalmente basta vez o que esse macaco solitário precisa, as vezes um certo tipo de comida, ou que você o acalme, ou talvez algo para beber. Com o tempo você aprender a assimilar os gestos que estes macacos fazem e saca o que ele precisa para aceitar seu convite. Se acontecer de você ter filhotes demais e adultos de menos, talvez seja hora de avançar uma geração no jogo. Assim os macacos adultos ficam idosos, e os macacos filhotes se tornam adultos. Hora de procriar e ter mais filhotes.

Os filhotes também tem um papel fundamental no processo evolutivo, pois são eles que ganham experiência e ativam novos neurônios em sua árvore de habilidade. Para isso você sempre deve sair explorando e descobrindo novas coisas com um macaquinho em suas costas. Eu passei um bom tempo andando por aí com um macaco ancião – porque perder um macaco velho me parecia um risco mais aceitável do que um adulto fértil saudável – até perceber que um idoso pode aprender novos truques, mas ele não ganhar energia neural para abrir novas skills na árvore evolutiva.

O ponto é que se ao explorar com um macaquinho nas costas o macaco adulto for morto por um predador, o macaquinho pode morrer ou se esconder caso encontre um esconderijo próximo. Aí você precisa encarnar outro macaco adulto e correr até o local em que o macaquinho se escondeu para resgatá-lo. Minha dica é começar com calma o jogo, poupe os filhotes, até aprender a lidar com a selva e seus armadilhas. Após isso leve-os sem preocupação em novas aventuras.

Truques esquecidos

Talvez o maior ponto de discussão em torno de Ancestors: The Humankind Odyssey seja a decisão de como funciona o ciclo evolutivo no jogo. A fórmula resulta em repetir, repetir e repetir demais certas mecânicas do jogo, afim de conseguir evoluir e ir atravessando eras. O que é divertido nas primeiras horas de jogo pode vir a se tornar um pesadelo após as primeiras 10 horas.

O que acontece? Veja bem. Você tem os neurônios que representam sua árvore de habilidade. Aprender e descobrir coisas novas (estando com os filhotes) lhe dá energia neutral que vai lhe permitir conectar novos neurônios e destravar novas habilidades ou facilitadores dentro da jogabilidade. Isso significa aprender a andar com duas pernas, ter melhor olfato ou sentidos que permitem alcançar maiores distâncias para localizar itens interativos, melhorar sua reação a ataque de predadores e etc. Esta árvore de neurônios se desenvolve em divisões que melhoram sua comunicação com seu grupo, mobilidade, sentidos e forma como seu organismo reage a novas tipos de alimentos. São coisas que você não aprende apenas testando coisas na floresta, é preciso energizar essa árvore neural.

O pulo do desespero ocorre quando você decide avançar eras evolutivas. Cientificamente até faz sentido. Nem tudo que aprendemos é transmitida para a próximas gerações, parte de todo nosso conhecimento se perde. Por isso, quando você avança para outra era, todos os seus neurônios que não foram reforçados com pontos especiais, sendo que normalmente se ganha um ponto a cada geração de seu clã, são esquecidos e o jogador precisa energizar estes neurônios todos novamente. E pra isso você repete o ciclo de coisas que já sabe fazer no jogo, identificar novamente itens, manipular objetos, enfrentar e intimidar predadores e rastrear novas áreas e locais no mundo do jogo.

Portanto é recomendando antes de saltar por eras de evolução, primeiro saltar gerações menores, fazendo seus filhotes se tornarem adultos e terem novos filhotes, que devem também se tornar adultos e terem mais filhotes. Avançar alguns décadas assim, ganhando mais pontos de reforços e aí sim decidir migrar sua evolução para alguns milhões de anos. E mesmo com essa dica fique ciente de que parte da sua evolução neural vai ser esquecida e você precisará evoluí-la novamente.

É este ciclo dentro da progressão de Ancestors que compromete parte do ritmo da jornada. Porque mesmo que o macaco tenha esquecido alguma habilidade inerente a essa árvore de habilidade, você como jogador ainda sabe que ela existe. É uma decisão baseada no que cientificamente deveria acontecer, mas mecanicamente, pensando em um videogame, é algo que talvez pudesse ter sido amaciado em detrimento da diversão. Até porque não se trata de fazer mais coisas diferentes para ganhar novamente estes pontos, mas sim de repetir coisas que você, como jogador, vai estar cansado de fazer, só porque precisa continuar a linha evolutiva com as habilidades que já sabe que o jogo vai lhe oferecer.

Claro que parte desse sistema é também impedir que você apenas vá mudando de eras rapidamente. O título almeja que o jogador fique um bom tempo explorando todas as possibilidades de cada era, antes de sair correndo para a próxima. E nesse sentido há realmente muito que se pode explorar e pesquisar, mas parte disso segue uma linha de repetir ações já conhecidas. E isso vai lhe cansar.

Considerações finais

Ancestors: The Humankind Odyssey tem méritos, muitos alias. Para um jogo de sobrevivência, o título não é masoquista como tantos outros de seu gênero. O jogador não precisa ficar a todo tempo preocupado em comer, beber ou dormir, dando espaço e libertado ao jogador para explorar e descobrir novas coisas em tempo hábil de decidir seguir adiante, descansar ou voltar a base de seu clã.

O jogo também não sofre da esquizofrenia inerente desse gênero, não possuindo nenhuma grande profunda e complexas mecânicas de crafting e construção de objetos. Nesse sentido o jogador tem sempre a interação entre dois objetos, pedra e coco (por exemplo) e o que o macaco pode fazer para que um objeto interaja com o outro. É um jogo sem inventário. O que se tem são as duas mãos de seu macaco e o fato de cada uma pode carregar um único objeto. É possível construir uma base, apenas juntando quatro folhas e batendo no chão, criando assim um ninho para dormir. É um sistema bem simples, sem qualquer tipo de complexidade. Para um jogo de sobrevivência, é um aspecto minimilista interessante e que funciona.

Em termos de interface, Ancestors: The Humankind Odyssey tem como opção uma experiência totalmente imersiva, sem qualquer hub na tela, ou com um hub bem simples, apresentando apenas o que interessa. As vezes é difícil entender o que o jogo quer que você faça na hora de manipular dois objetos ou as primeiras vezes em que precisa aprender a desviar de um predador ou a lidar com o indicador do membros do clã. Mas com o tempo você entende, tal qual os macacos no jogo. Há que ser feito elogios ao fato de toda a interface está localizada em nosso português, tornando bem fácil entender os nomes e funções de certos itens.

Quanto aos gráficos (tendo como base o Xbox One normal), não digo que são os mais bonitos nessa geração. Há momentos em que estes até me fizeram lembrar algo que encontraria na geração passada, ou ao menos é o que diz minha memória afetiva. Tive uma sensação de que o jogo tem muitos elementos iguais em seu bioma, como estruturas de árvores e plantas iguais, independente da distância percorrida. O que deveria ser um ambiente enorme, com muito a se descobrir, me lembrou um pouco aqueles clássicos jogos de mundo aberto do Homem-Aranha em quê várias esquinas de Nova York pareciam ser a mesma coisa. Não que isso torne o jogo feio, mas visualmente não me impressionou como achei que poderia.

Dito isso, aplaudo a verticalidade que Ancestors oferece. O jogo não tem um ambiente explorável nada plano. Há cadeias de penhascos e cachoeiras incríveis, além de poder explorar o topo das árvores, em alturas realmente altas. Isso sim me impressionou. Os macacos podem subir e explorar qualquer tipo de superfície, mas há um indicador de vigor que lembra o jogador que as vezes é preciso parar e descansar, antes de continuar subindo. E no topo das árvores também há predadores, como aves gigantes que não terão dó daqueles que se aproximarem de seus ninhos.

O jogo também possui um ciclo de dia e noite, assim como diferentes climas, como chuvas tropicais, além de áreas em que o jogador precisa lidar com o desconhecido e gerenciar seu medo, antes que o macaco entre em histeria e caia. Quando isso acontece, é preciso analisar o ambiente até o macaco se acalmar, indo em direção ao centro da ameaça e dominando seu medo. Nestas horas a tela fica turva e ameaçadora, ainda que não necessariamente haja algo prestes a lhe atacar. O ponto é que seu macaco não sabe disso e tem medo de áreas em que ele ainda não explorou. É um momento de bastante tensão no gameplay. Você corre contra o tempo, entendendo o lugar antes da histeria ou precisa sair da área e recomeçar novamente.

Infelizmente o título não oferece qualquer tipo de multiplayer, nem sequer online. Talvez pudesse ser interessante encontrar outros jogadores primatas em certos momentos do jogo e acompanhar a evolução de cada um. As vezes até mesmo compartilhar ideias. Entretanto sendo um jogo independente, é compreensível que não haja nada nesse sentido.

Ao fim, dá para concluir que Ancestors: The Humankind Odyssey é um título diferente e instigante. É um jogo de sobrevivência focado em descobrir novas coisas. Um jogo que não vai pegar na sua mão e lhe dizer tudo que você pode fazer dentre seu universo. Também é uma proposta curiosa para quem tem interesse na parte científica e histórica na qual o jogo se baseia. Tem uma jogabilidade que recompensa a curiosidade do jogador, mas que com o passar das horas pode cansar e mostrar que nem sempre a repetição é uma boa ideia para esticar a fórmula de um jogo.

Não é um título focado em ação, com muito combate, mas tem certa tensão na hora em que os predadores estão à espreita. Dá liberdade ao jogador de explorar grandes biomas, em diferentes escalas, subindo em grandes penhascos, nadando contra correntezas em rios, escalando imensas árvores. A interação com seu clã também começa tímida, mas novas coisas ponde ser aprendidas, e eventualmente você passa a se simpatizar pela situação de sua família. É um jogo na qual você aprende que a evolução é árdua, e que milhares de anos é um feito incrível para o surgimento da humanidade. Todos nós começamos aqui, segundo a ciência, e isso é um feito realmente impressionante.

Galeria

Dando uma nota

Proposta singular, interessante de explorar, descobrir e aprender - 9
Graficamente não chega a impressionar, ainda que o design te leve a momentos interessante - 7.8
Boa interface, e totalmente em português, dá acessibilidade - 8.5
Progressão pela rede neural (árvore de habilidades) é lenta e nada recompensadora - 6.5
Sobrevivência sem esquizofrenia, não precisa comer, beber e dormir a cada 5 minutos - 8
Sabe criar momentos de tensão com predadores, ainda que possa cansar após um tempo - 7.5
Base científica dá verossimilhança a sua proposta - 8.5

8

Ótimo

Ancestors: The Humankind Odyssey é uma experiência singular, de sobrevivência e descobertas em um passado instigante. Criado com bases científicas o título te deixa cruioso em saber até onde sua proposta irá lhe levar. Mecanicamente é interessante, simplificando coisas que o gênero já cansou de oferecer, mas tropeçando um pouco na progressão mais lenta do que deveria ser. Repetir e errar faz parte, mas depois de dezenas de horas de gameplay, talvez isso lhe impeça de chegar ao seu fim. Mas aí a jornada por si só já terá lhe recompensado.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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