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Guerra do Velho | Leitura concluída! (Opinião)

É importante antes de começar este texto alertar que esta é a terceira vez que escrevo a respeito do livro Guerra do Velho aqui no site. Logo abaixo será possível encontrar os dois artigos anteriores a este, na qual disseco um pouco a respeito da trama inicial, além de trazer trechos do começo do livro.

Até porque desta vez não quero me repetir nas apresentações. Não quero explicar sobre o que se trata ou livro, ou levantar questões já abordadas. Porém não se preocupe, vou continuar escrever a respeito da obra sem levantar spoilers, para não estragar a diversão de ninguém. Sendo assim a minha intenção desta vez é apenas dizer o quão satisfeito e contente estou após ter terminado a leitura de Guerra do Velho, a qual comecei a ler lá em junho deste ano e fui lendo ponderadamente ao longo destes últimos meses, intercalando com outros livros que também andam sendo discutidos por aqui no rodízio de leitura do site.

Termino Guerra do Velho já sedento de curiosidade por sua continuação. Esse universo de guerra interestelar, humanos modificados, raças alienígenas e tecnologias que estão além de minha imaginação realmente me conquistou. Então essa é a nova e moderna ficção científica? Se for, gostei.

Quer dizer, faço esse comentário tendo como base outros livros que estou lendo esse ano, como Neuromancer e Pedra no Céu, clássicos de seu gênero e que também abordam o futuro, mas um futuro na qual seus autores imaginaram há décadas atrás, antes mesmo de muitos dos leitores de hoje serem pequenos embriões na barriga de suas respectivas mães.

A obra de John Scalzi é relativamente nova, tendo sido publicada originalmente em 2005 lá fora, o que cria essa necessidade de ver o futuro além daquilo que os grandes clássicos do gênero já imaginaram décadas atrás. É preciso fugir da clichê que permeia os romances futuristas. E pra mim Scalzi conseguiu.

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Um conto em 3 atos

Guerra do Velho parece ter sido idealizado para funcionar de tal modo que este universo possa ser expandido para novos livros, o que de fato já aconteceu. Já existem outros livros lá fora, e a Editora Aleph já prometeu publicar o segundo aqui no Brasil em 2017.

Isso não significa que Guerra do Velho é um livro sem final. A trama funciona de forma isolada, independente se o leitor resolver não ler os demais livros dentro do universo Scalzi. A história deste livro se propõe a contar a aventura de John Perry, após completar 75 anos de vida na Terra e se alistar nas Forças Coloniais de Defesa, protegendo a expansão da humanidade pelos planetas da Galáxia, seja lá o que isso realmente significa (você não precisa entender isso nesse momento).

Sob a ótica de seu protagonista, Guerra do Velho cumpre o que promete. O leitor acompanha a jornada de Perry por três atos de sua nova vida. O conhecemos na Terra, com seus 75 anos, um idoso espirituoso, que ao não lhe restar mais nada, após o falecimento de sua esposa e o crescimento de seus filhos e netos, resolve que é hora de deixar sua vida na Terra e vai se aventurar no espaço. O primeiro ato do livro é regado pelo inesperado, pelo suspense e mistério do que lhe aguarda numa vida sendo um soldado espacial com a idade que possui.

O livro cumpre magnificamente esse primeiro ato, o da descoberta. Ao leitor tudo é tão maravilhoso quanto é para Perry. Como pode existir uma exército espacial com idosos? O que realmente as Forças Coloniais de Defesa estão escondendo das pessoas da Terra? Como é realmente a vida no espaço? Quais as tecnologias vão tornar crível toda essa premissa? Scalzi amarra muito bem todas as arestas nesse primeiro contato.

A solução para o problema da ideia é incrivelmente bem engenhosa. Utiliza a ciência, mas parece ir um pouco mais além do que hoje o ser humano comum conseguiria entender. É uma solução inesperada, especialmente se o leitor vinha pensando no óbvio sobre esse problema.

***

Já no ato dois, o livro se propõe a mostrar o segundo momento da vida de Perry, na qual parte dos mistérios das perguntas acima já estão respondidas e ainda assim o autor consegue prender o leitor expandindo ainda mais os detalhes que compõem essa vida de patrulheiro espacial. Se precisasse definir este segundo momento do livro, diria que é o ato de treinamento. Na qual os personagens ainda não estão prontos para guerra, enquanto ainda nem sabemos exatamente quem são os inimigos e quão bizarros e diferentes eles podem ser.

Nesse ponto, dá para dizer que Guerra do Velho estava seguindo uma fórmula que eu poderia reconhecer de livros juvenis como de Harry Potter. O protagonista é alguém qualquer, porém é apresentado a um mundo extraordinário, conhece um grupo de amigos e isso cria raízes com o leitor. Você acha que está confortável com a trama neste ponto. Até que ela vira a mesa e muda completamente suas regras.

O livro trabalha, em boa parte entre o ato 1 e o ato 2, no relacionamento de Perry com um grupo de personagens, na qual são batizados como os Velharias. Só que logo após o começo do ato 2, o autor revela que este não é um livro de um grupo de personagens felizes e amigos para todo o momento, o que seria até meio previsível. Nada disso. Perry sai desse contexto e passa a interagir com diversos núcleos de novos personagens, deixando para trás aqueles na qual você achou que estariam com Perry durante toda a aventura.

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Grande mérito de Scalzi, que sabe introduzir personagens com maestria a todo momento. Não há personagens chatos ou ruins em Guerra do Velho, independente se eles surgem no primeiro, segundo ou terceiro ato da obra. E todos, grandes ou pequenos, são apaixonantes. Difícil dizer se pela destreza do autor ou se porque John Perry é um personagem tão simpático e carismático a ponto de qualquer um que é introduzido na trama e apresentado a ele acaba magnetizado pelo carisma contagiante do protagonista.

Isso significa que personagens, como os Velharias, entram e somem da história como se não fossem necessários? De forma alguma. Se prepare para algumas lágrimas, pois apesar de todo o tom de humor, sarcasmo e aventura extraordinária, Guerra do Velho possui alguns momentos pesados e tocantes, na qual o autor mata sem dó personagens que você sinceramente torceria para que eles continuassem vivos. Há um porquê de personagens entrarem e saírem a todo momento da trama, seja porque seus destinos foram selados, seja porque o autor tem planos para eles em momentos na qual você não vai ver chegando.

***

Por último, o terceiro ato, este na qual ainda não havia comentando aqui no site. Peguei o livro para ler há algumas semanas, podendo jurar que levaria um mês inteiro para terminar quando de repente me pego terminando o livro em um final de semana, em uma maratona que começou em um sábado à tarde e me fez ir até a madrugada para o domingo. Não havia como parar de ler após os eventos tão impressionantes que rolaram no terceiro ato.

É de aplaudir em pé a forma como Scalzi consegue colocar ação no roteiro, descrevendo a Guerra como algo cruel, errada e tão estranha e surreal quanto é possível se imaginar uma que seja contra raças alienígenas em planetas e mundos distantes. E tal como fazemos na vida real, há um momento genial no livro na qual Perry também vai se questionar quem são os mocinhos nessa história e quais os propósitos da guerra.

O terceiro até tem um ponto de virada, na qual o leitor acaba ficando preso em uma sentido de urgência. Sem saber como tudo vai acabar. Não se trata do final de uma guerra que perdura há décadas, mas de uma batalha que pode ditar o futuro da guerra. E John Perry acaba indo parar no meio do olho do tornado.

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Vale ou não vale?

Gostei bastante do desfecho final do livro. Em como o autor conseguiu encerrar essa parte da jornada da aventura de John Perry. É um final satisfatório, talvez não feliz como você acaba torcendo para ser nos momentos finais, mas o suficiente para se ter a sensação de encerramento. Só que mesmo assim, há essa janela aberta, na qual torna-se possível novas histórias com Perry.

Há problemas na trama? Eu poderia apontar apenas uma que me incomodou um pouco, bem próximo ao fim do terceiro ato, na qual o autor criar uma situação de coincidência extrema com Perry e dois personagens que se reencontram de forma inesperada. É legal ver esse reencontro, porém a forma como ocorre acabou me soando muito forçado, como se o autor não tivesse conseguido criar um cenário mais crível para isso (ou não percebeu o quão improvável tal cenário soa aos olhos dos leitores). Não é algo que estraga o final do livro, mas é uma daquelas pontas que deve vir a ser trabalhado em livros futuros, estando ali como gancho, ainda que um pouco desnecessário.

Tirando isso, todo o restante do livro foi sensacional pra mim. Gostei da forma como ele é bem dividido, capítulos curtos, fácil leitura, sem exageros narrativos ou metáforas malucas que possam confundir o leitor. A narrativa de John Scalzi pode ser simples, mas é gostosa de se acompanhar.

Agora posso afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que Guerra do Velho foi um livro inesperado. É cativante, viciante, inteligente e instigante. O mundo da ficção científica inventado por Scalzi é refrescante perante outras obras que andei lendo esse ano, com boas ideias e inesperadas reviravoltas.

E Scalzi não pira além da conta. Criando um cenário na qual até mesmas as raças alienígenas são facilmente compreendidas pelo leitor e crível no sentido de sua cultura e do porque serem importantes na trama, representando o desconhecido e o medo que a humanidade tem daquilo na qual não entende muito bem. São criações necessárias, sem soarem gratuitas ou não condizentes com a proposta da trama do livro.

Resta apenar dizer que Guerra do Velho é leitura mais do que obrigatório para quem curte uma boa ficção científica, com bons cenários, ótimos momentos, fantásticas tecnologias do futuro e cativantes personagens. Descubra o porquê você também iria querer completar 75 anos de idade para ir para o espaço, lutar uma guerra que ninguém na Terra sabe exatamente porque ela existe!

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Onde comprar? Recomendo olhar o preço em três sites que sempre tem os melhores preços para livros: Amazon BR, Submarino e Saraiva! — Fica a dica.

Excelente trama e universo proposto - 10
Acabamento impecável do livro físico - 10
Narrativa leve, de fácil compreensão - 10
Protagonista e personagens cativantes - 10
Cria a vontade de ler os próximos livros - 10
Fantásticas ideias sobre a tecnologia via ficção científica - 10

10

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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