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Análise | Skullgirls 2nd Encore

Disponível para Nintendo Switch, PlayStation 4 e PC

Skullgirls 2nd Encore é um destes jogos independentes que enchem os olhos por sua beleza, enquanto consegue entregar uma jogabilidade bem agradável, do tipo fácil de jogar, mas que exige bastante para ser dominada. E apesar do número dois no título, não se trata de uma sequência ao jogo lançado originalmente em 2012, e sim uma versão expandida e aprimorada, que veio ao mundo em 2015, quando o título começo a surgir nesta geração de consoles.

Entender a jornada de Skullgirls não é um requisito obrigatório para apreciar o título, ainda que seja importante para entender que o mesmo existe em diversas plataformas da geração passada, mas que não é exatamente igual a sua versão mais atual. Xbox 360 e PlayStation 3 possuem uma versão mais antiga do jogo, enquanto 2nd Encore está disponível para PlayStation 4 (e PlayStation Vita), no PC (por meio de um DLC de atualização) e mais recentemente o mesmo chegou ao Nintendo Switch, mais precisamente no último dia 22 de outubro, versão a qual utilizei para escrever esta análise. O Xbox One deve receber também o título, porém em uma data futura ainda a ser revelada.

Originalmente o título foi desenvolvido pelo estúdio Reverge Labs, que teve suas portas fechadas em 2012 devido a problemas com sua publisher e cortes de financiamento. Entretanto esse fim durou apenas alguns meses, pois parte da equipe original acabou fundando a Lab Zero Games, mantendo consigo os direitos de propriedade da série. Foi nessa época que o título foi retrabalhado, ganhando o subtítulo encore, e posteriormente 2nd encore, com ainda mais modos, personagens e jogabilidade reformada. Para isso o estúdio contou com uma sólida e bem sucedida campanha de financiamento coletivo para poder se levantar. Posteriormente outra campanha foi realizada para que a equipe trabalhasse em uma nova IP, que deu origem ao incrível Indivisible, que foi lançado no começo de outubro deste ano. E ambas as séries tem como ponto em comum a beleza gráfica, com uma arte toda desenhada à mão, parecendo um desenho animado.

Estranhos confrontos

Diferente de Indivisible, que é um action RPG com elementos de plataforma e dedicado ao single-player, Skullgirls 2nd Encore aposta em um jogo de luta no melhor estilo clássico, com seis botões de soco e seis de chutes, com combos e especiais que tornam as lutas muitas vezes imprevisíveis, com alto poder de reviravoltas. A inspiração parece vir dos clássicos títulos de luta da Capcom, como Street Fighter e Marvel vs Capcom, mas certamente a bizarrice dos movimentos e de seu elenco lembrando bastante o quase esquecido Darkstalkers.

A justifica vem de uma satisfatória construção de mundo, na qual o enredo fala sobre um artefato que pode conceder qualquer desejo a uma garota, entretanto esta precisa ter razões e coração puro, caso contrário a mesma será transformada em um monstro… uma skullgirl. É motivo mais do que suficiente para que a criatividade dê ares a imaginação, permitindo garotas cujo o cabelo é uma entidade demoníaca, ou uma zumbi que pode ter sua cabeça decepada para que a mesma fique mordendo a perna do adversário que ficar dando sopa perto da mesma, e assim por diante. O elenco é extenso, indo de uma personagem que parece uma personagem que parece inspirada nos clássicos desenhos da década de 40/50, outra cujo o guarda-chuva é um demônio, outra é uma enfermeira meio ninja, e tem uma que tem um chapéu que basicamente se torna dois braços gigantes.

Inicialmente o elenco consistia apenas em oito personagens femininas, mas como o advento de atualizações e mais conteúdo, dois personagens masculinos acabaram surgindo, Beowulf que é um lutador de vale tudo, que utiliza uma cadeira para boa parte de seus golpes e Big Band que é basicamente uma banda de um homem só, atacando seu oponente com os mais diversos tipos de instrumentos musicais. Skullgirls 2nd Encore conta com um elenco de 14 personagens jogáveis.

Pode parece pouco, mas parece ser o suficiente para dar diversidade as lutas, especialmente porque as personagens são bem diferentes umas das outras, com diversos tipos de estilos, desde as que lutam melhor a distância, para aquelas que detonam se o jogador deixar chegar muito próximo.

O sistema de golpes funciona no esquema clássico de soco fraco, médio e forte, assim como chute fraco, médio e forte. Os golpes especiais também funcionam com os clássicos meia luta para frente ou para trás, entre outros comandos clássicos, enquanto há também os super golpes que são acionados usando mais de um botão.

A ambientação  de Skullgirls 2nd Encore também se destaque frente a apresentação do jogo. Com essa atmosfera mais antiga, datada de algo como os anos 50 dos Estados Unidos, com uma trilha sonora que aposta bastante no Jazz, com as lutas sempre abrindo como esse efeito como se fossem um rolo de filme antigo rodando em uma tela de cinema. É um efeito muito legal que dá um charme próprio a produção, tornando mais única em relação aos títulos a qual certamente serviram como inspiração.

A própria animação das personagens, do cenário ao fundo das batalhas, tudo é minuciosamente incrível. O nível da animação é algo absurdo, com muitos detalhes em tela, cores realmente que destacam a ambientação e uma fluidez na animação que não a torna truncada ou falsa. Realmente parece um desenho animado. As primeiras lutas em Skullgirls foram difíceis pra mim, pois ficava admirando estes detalhes da animação e não conseguia prestar atenção nas batalhas.

Modalidades para todos os gostos

Outro aspecto do título que me surpreendeu diz a respeito do que há para se fazer com o conteúdo do game. Primeiramente é necessário elogiar as modalidades de treinamento e tutoriais que esta versão apresenta, com tudo muito bem detalhado. O jogo ensina os movimentos básicos, além das regras e dos golpes de cada um dos personagens, passando até mesmo pelos combos. E não para por aí, pois ainda há uma modalidade com desafios específicos, que servem para colocar à prova tudo que você pode aprender no modo tutorial.

2nd Encore ainda apresenta modalidades mais clássicas, como um modo Arcade e um modo Sobrevivência. Tudo para que o jogador solitário possa testar e se aperfeiçoar suas técnicas com seus personagens favoritos enquanto se acostumar como todo o elenco presente aqui. Porém o melhor é realmente seu modo História.

No modo história, cada personagem tem sua linha narrativa muito bem contextualizada, explicando bastante sobre o mundo do jogo e como alguns destes personagens se relacionam com outros personagens principais, assim a presença de personagens secundários, que não são jogáveis. Os diálogos ocorrem sempre no intervalo entre as lutas, explicando o motivo pelo qual um personagem está em confronto com outro.

E mesmo que os diálogos ocorram em telas estáticas, as caixas de diálogos estão todas dubladas em inglês, dando voz a cada um dos personagens do jogo, incluindo os secundários. Tem muito jogo de luta que não consegue entregar esse nível de preocupação com a imersão. Funciona muito bem. Quando a cena em si precisa de um impacto maior há até mesmo uma tela com uma arte própria que apresenta a situação exposta, sendo mais comum ocorrer no final do modo. Todas estas cenas extras acabam depois indo parar em uma galeria que pode ser visitada em um dos menus do jogo.

Não resta dúvidas que o modo história é a modalidade em quê jogadores solitários irão passar a maior parte de suas experiências com o jogo. É realmente um modo envolvente, porque os personagens são originais e interessantes, te levando a querer conhecer a história individual de todos, seus segredos e quais se conectam com quais. No que diz respeito as outras modalidades single player, o maior foco acaba sendo no gameplay em si, em ser desafiado pela CPU e aprender como lidar com a pressão das batalhas. No modo história é mais sobre entender esse universo e personagens.

E então temos o multiplayer, tanto local quanto online. Na parte do multi local acredito que não haja muito o que se mencionar: pegue dois joy-cons e divida com um amigo para partidas amistosas no sofá para decidir quem poderá se vangloriar da vitória, enquanto ao perdedor resta apenas a humilhação da derrota. Um modo versus bem tradicional.

Quanto ao multiplayer online, e aqui tome nota que a minha experiência diz respeito a versão recém lançada para Nintendo Switch, temo em dizer que não dei muito sorte com esse aspecto do jogo. Primeiro é preciso dizer que Skullgirls 2nd Ecore não possui cross-plataform, então nada de permitir que o online se conecte com outras plataformas que já possuem uma comunidade consagrada. Os jogadores no Switch então dependem apenas de si mesmos para lutarem online.

E estamos no Brasil, some a alta do dólar e do jogo sequer estar na humilde eshop nacional do Switch… resulta de que não se deve esperar por servidores repletos de jogadores em nossa região. O título até permite a busca por servidores internacionais, mas dos testes que realizei, além da espera em encontrar partidas, basicamente todas rodaram com lentidão e desconexões foram naturais. Jogos de luta com lag não é uma experiência bacana, fato.

Claro que isso pode melhorar com o tempo. O jogo acabou de sair. Ainda há chance de uma parte da comunidade aqui se interessar pelo título. Talvez quando o mesmo estiver em alguma promoção, facilitando seu preço em dólar para nossos bolsos.

Também há um lado positivo que pode ajudar o jogo por aqui, que é o fato dele estar todo localizado em português (legendas e textos), quebrando assim a barreira de acessibilidade que pode surgir em jogos apenas em inglês. Certamente isso agrada o público por aqui, por vezes vencendo até mesmo a barreira de seu preço.

Por fim, antes de encerrar esse segmento na qual abordo os muitos modos de jogo de Sullgirls 2nd Encore, preciso mencionar que o título tem um sistema bem interessante que permite que os jogadores em quase todas as modalidades, exceto no história, escolham batalhas utilizando um, dois ou três personagens, como um tag team que lembra o melhor estilo Marvel vs Capcom.

Essa mudança entre um contra um ou um contra dois ou dois contra três aparece nos diversos modos do jogo, como arcade ou sobrevivência, e surpreendentemente funciona de uma forma que ainda não havia visto se feito em outros jogos de luta. O jogo basicamente faz uma balanceamento de acordo com o número de lutadores de cada lado. Assim alguém que está lutando com apenas um personagem tem mais força e melhor resistência ao dano do que o outro jogador que está lutando usando dois ou três personagens.

Dá para sentir na pele que a luta contra um único personagem no comando da CPU é muito mais complicado quando se está com três personagens, pois um combo da CPU pode tirar até quase 50% da barra de saúde de um personagem, enquanto se você fizer o mesmo combo contra a CPU causará um dano muito menor, algo em torno de 10%. A barra de saúde dessa CPU quase não diminui.

E faz sentido ser assim, afinal com dois ou três personagens, o jogador tem a opção de trocá-los a qualquer momento da batalha e o dano perdido, porém ainda não definitivo, pode ser recuperado com o jogador na reserva, tal qual ocorre em games como Marvel vs Capcom. Então ao lutar em equipe, é preciso realmente apostar nas técnicas de jogo em equipe, ao invés de pensar que apenas tem mais um ou dois lutadores no banco da reserva. Alternar e chamar suporte acaba sendo bem importante, ainda que na parte do suporte é preciso tomar cuidado, pois se o jogador que está com apenas um personagem usar um especial que pegue o adversário e o personagem de suporte que estiver em tela, ambos sofrem dano realmente massivo.

Esse conceito de equipes ou solo funciona nos modos gerais do título, tornando modos como sobrevivência e arcade, além do multiplayer em si, ainda mais divertido e dinâmico do que se espera que sejam. É uma ideia que quebra um pouco os parâmetros mais tradicionais de um jogo de luta. É uma ótima ideia, e que normalmente não é aplicada em outros jogos de tag team mais famosos.

Considerações finais

Skullgirls 2nd Encore é uma versão realmente impressionante de um título que já tem uma certa estrada no mercado de games. Não se comporta como uma sequência, mas está bem a frente do que o primeiro Skullgirls, trazendo um pacote realmente completo de conteúdo.

Não sou um grande especialista de jogos de luta, mas sei me divertir quando um game é bem feito. O título dá brecha para que jogadores menos experimentes possam se divertir com o básico do que o mesmo tem a oferecer, com os meia luas e especiais. A criação de combos exigem um pouco mais de prática, entretanto o próprio jogo oferece um extenso modo para se aprender a dominar técnicas mais avançadas.

Na parte dos controles, admito que ainda tenho um certo medo de usar os joy-cons nestes jogos que exigem ser um pouco mais agressivos com os analógicos. Tenho um pro-controller genérico para estes casos e devo dizer que me serviu muito bem ao jogo. E assim, o título fica lindão tanto na televisão quando no modo portátil. O nível da animação é realmente de cair o queixo.

Curioso também constatar que o título não envelheceu como poderia pensar que envelheceria. Sua mecânica baseada em clássicos jogos de luta da Capcom parece impedir que isso aconteça. É verdade que existe outros jogos de luta na atual geração que são mais energéticos e até mais simples de serem dominados, mas a fórmula clássica até hoje é apreciada no meio dos fãs do gênero. Não tem como errar quando se vai por essa direção.

Gosto como o jogo funciona muito bem na experiência single player, o que nem sempre é muito fácil para jogos de luta, especialmente quando são feitos no segmento dos jogos independentes. Posso dizer ainda que achei Skullgirls 2nd Encore mais envolvente do que BlazBlue: Central Fiction, que também é outro clássico que o Nintendo Switch recebeu este ano. O modo história de 2nd Encore é mais envolvente e ágil, enquanto me lembro de achar o de Central Fiction engessado e inexpressivo.

Quanto as críticas, não há tantas a serem feitas. O elenco do jogo é modesto, isso não dá para negar. São 14 personagens apenas, o que em comparação com outros títulos talvez seja um número bem modesto, porém é um elenco bem diversificado e original. Talvez com uma grande dificuldade para balanceamento se fosse um título para campeonatos. O personagem Big Band, por exemplo, tem um raio de ataque muito grande, com ataques bem explosivos que causam dano massivo, enquanto algumas das garotas tem um raio de alcance bem menor, exigindo uma abordagem bem diferente, mas um pouco mais difícil de lidar com um personagem como este.

Fora isso, tem a questão da parte online, que apesar de existir, tem um certo prejuízo em nossa região pela baixa comunidade. E querer que o título tivesse um cross-plataform talvez fosse pedir demais, especialmente ao se pensar que seu desenvolvimento original foi em uma época que sequer pensávamos em algo assim.

Por fim, Skullgirls 2nd Encore é um jogo encantador que vence o tempo em que está no mercado. Chega ao Nintendo Switch com uma excelente apresentação e em tempos onde a Lab Zero Games está em evidencia graças ao bom desempenho de Indivisible. É uma boa oportunidade para reapresentar o título de estreia do estúdio, para quem sabe começar a pensar se uma sequência não poderia vir a ser realizada na próxima geração de consoles. É um jogo que tem um pacote de opções legais, seja no single player quanto no multiplayer.

Há personagens realmente originais e que esbanjam um charme singular, enquanto a próxima atmosfera do jogo é toda encantadora e única, com uma trilha sonora envolvente e um excelente trabalho ao dar voz a todos os personagens presentes em seu universo. Como gameplay, o resultado são batalha ágeis, com um bom sistema de combos e golpes especiais, em um estilo bem clássico de controle, que responde bem aos comandos do jogadores e entregam um visual arrebatador com seus gráficos desenhados à mão e recheados de detalhes na hora da ação. Quem aprecia o gênero de luta clássico, inspirado nos títulos da Capcom, certamente vai se encantar com o trabalho entregue aqui.

Galeria

Dando uma nota

Visual fantástico, com personagens e cenários desenhados à mão - 10
Versão com o pacote completo, todos os personagens, modos e melhorias - 9.5
Jogabilidade com um estilo clássico, fácil de jogar, porém requer treino para dominar - 8.5
Bom leque de modos para o single player, além de local e online para multiplayer - 8.5
Modo história (em português) se sobresai frente ao resto do conteúdo - 9
Elenco é um pouco enxuto, mas oferece diversidade - 8.5
Partidas Online podem ser um problema em nossa região (lentidão e muita espera) - 7

8.7

Incrível

Skullgirls 2nd Encore é um jogo que cumpre expectativas. Talvez suas primeiras versões não fizessem isso, mas a atual certamente cumpre todos os requisitos para um divertido jogo de luta. Há a sensação de jogabilidade clássica, um tanto arcade, com diversos modos que sustentam o jogo tanto no single player quanto no multiplayer. O elenco é original e criativo, lembrando um pouco aquele estilo Darkstalkers que até hoje deixa saudades. O visual então, é algo de um nível fantástico, com linda modelagem desenhada à mão. Tudo isso impressiona ainda mais quando se vê que é uma série que vem totalmente de um estúdio pequeno e independente. Há amor e carinho de seus criadores, isso traz uma importância tremenda no produto final.

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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