JogandoRapidinhas

O enxugamento da Telltale Games não deveria ser uma surpresa, deveria?

Foi notícia mundial na última sexta feira, dia 21, o quase fechamento da Telltale Games, que gerou demissão em massa de quase todo seu quadro de um pouco mais de 200 empregados, mantendo apenas 25 funcionários para finalização de alguns projetos do estúdio.

Não vou repetir a notícia, que já foi amplamente divulgada pela mídia como um todo, mas deixo aqui a nota da Gamespot Brasil que foi a que achei mais completa quando busquei saber mais sobre o assunto no último final de semana. O que quero aqui é comentar um pouco a respeito do caso.

O ponto é que… isso não deveria ser necessariamente uma surpresa, deveria? Tudo bem, o estúdio tinha contratos de licenciamentos com grandes empresas da indústria do entretenimento. Marvel e DC Comics, além dos direitos em torno de The Walking Dead e até mesmo com a Netflix para produzir um jogo baseado em The Stranger Things. Havia então custos com licenciamentos, enquanto que não havia exatamente nenhuma propriedade intelectual própria do estúdio que não precisasse gerar tal gasto.

Até mesmo The Wolf Among Us é baseado em um universo cuja a licença precisou ser adquirida, no caso os quadrinhos Fables, criado e escrito por Bill Willingham e publicado no sela da Vertigo. Talvez fosse uma IP mais solta da Telltale, não sei dizer por não conhecer o material original, mas mesmo assim é de conhecimento da comunidade que o título não foi tão bem em vendas como esperado. Mesmo assim uma sequência anunciada ano passado talvez pudesse dar um gás necessário… mas não deu tempo.

E por mais que os roteiros dos jogos da Telltale sejam amplamente elogiados por toda a crítica internacional e até mesmo por comunidade de fãs, quando se olha mais de perto estas produções se torna muito fácil notar que elas são mecanicamente e visualmente muito parecidas.

Eu mesmo tive o prazer de jogar alguns de seus últimos sucessos, a qual agora o estúdio admitiu que não refletiram o número de vendas esperados, e posso dizer que existe algo de engessados em todos seus jogos atuais. Especialmente quando se olha para outros games de outros estúdios que também ensaiam esse gênero de jogos que querem contar uma história e deixam o jogador interagir em decisões que refletem o conduíte narrativo. O melhor exemplo? Life is Strange.

Não só Life is Strange, apesar deste ser o mais parecido com a fórmula da Telltale, mas há diversos jogos que brincam com essa proposta de dar uma história acima da jogabilidade de ação que um videogame necessariamente possui. Hellblade Senua’s Sacrifice, Tacoma, Broken Age, Little Nightmares, Armikrog e Virginia são alguns exemplos de jogos onde o universo e a trama são o contexto principal, muito acima da jogabilidade em si. Claro que os estilos de misturam, mas há uma ideia em comum em todos. E veja como em termos artísticos cada um é de um jeito.

Tudo bem que você pode atribuir isso a produções de estúdios diferentes, que criam seus próprios estilos. E isso é verdade. A própria Dontond Entertainment deve começar a ter esse tipo de problema após Life is Strange 2, que parece seguir artisticamente aquilo que o jogo original criou. Porém, sendo justo a Dontnod, a galera de lá também fez Vampyr, que tem uma outra pegada bem diferente de Life is Strange. E perceba como são IPs próprias, sem custos com licenciantes.

Quando escrevi um pouco aqui no site sobre jogos como Batman e Guardiões da Galáxia, ambos produzidos pela Telltale, me recordo claramente de fazer elogios aos roteiros, enquanto criticava o estilo gráfico destes jogos, que já soavam datados para uma geração que experimenta muita coisa diferente. A engine gráfica da Telltale precisava urgentemente ser atualizada. Muitas de suas produções até hoje possuem cara de algo que deveria estar rodando na geração passada de consoles (e algumas delas devem ter saído para tais plataforma por sinal). Houve então um… comodismo?… confiança demais na arte de seus jogos?… ou algo assim por parte do estúdio.

Nunca houve a ousadia de arrisca um título diferente da fórmula consagrada com o primeiro The Walking Dead. Um gênero diferente. Uma direção de arte fora da bolha. Uma proposta inusitada. Então não, eu não estou surpreso que a Telltale Games tenha chegado a este ponto. Estou triste sim, mas surpreso não.

Há que se pensar que até mesmo rolou com conformismo com os jogos da série de The Walking Dead. Eu não os joguei, mas é notório que todo mundo adora a primeira temporada, enquanto que as demais não conseguiram superar o jogo original. São bons, mas não tão impactantes quanto o primeiro. A meta do estúdio era muito grande, muito difícil de superar.

Adicione aí o modelo episódio. Algo que talvez tenha dado certo no passado, mas que hoje em dia já dá sinais de que nem sempre é uma boa ideia. Eu estou surpreso que Life is Strange 2 está chegando de forma episódica. O reboot de Hitman de 2016 cheguei a pensar que tinha sido uma boa ideia, mas aparentemente não deu muito certo, tanto é que o que está saindo agora no final do ano, com o apadrinhamento da WB Games, não mais adotará esse modelo.

Resta agora cogitar sobre o futuro. O que será da Telltale Games a partir desta decisão. Certamente estas demissões terão um altíssimo custo. Mas o estúdio não fechou plenamente suas portas. Tudo que estava em desenvolvimento talvez tenha sido pausado ou engavetado, mas ainda não se decretou o final completa da empresa.

Talvez seja interessante pensar que ainda há a Telltale Publishing, que é a divisão que fecha parcerias com estúdios independentes para distribuições e publicações de jogos menores e independentes. Tanto é que semana passada mesmo se anunciou por meio deste selo a chegada de Stranded Deep no PlayStation 4 e Xbox One para o próximo dia 9 de outubro.

Já comentei um pouco por aqui sobre empresas que se tornam publishers quando falei sobre a Team17 estar celebrando o lançamento de seu 100º título neste formato. Um estúdio que faz games, mas que hoje em dia tem grande parte de seu faturamento auxiliando outros estúdios a lançarem seus games. A Telltale ainda tem essa expertise e pode continuar momentaneamente com um foco mais como publicadora. Existe esperança.

O que fica no final de toda essa história é esse momento de reflexão. A Telltale Games talvez tenha causado isso a si mesmo. A indústria, o mercado e o desenvolvimento de jogos é maleável e flexível. Está em constante mudanças e novas ideias, padrões e formatos estão surgindo a todo momento. Talvez tenha sido um erro infortuno do estúdio acredito que não precisaria mudar em sua sólida fórmula.

Espero apenas que caso a Telltales Games consiga eventualmente se reerguer e retornar sua produção, que isso abra uma nova fase para o estúdio. Com novas ideias, novos formatos, mas sempre sem perder a essencial de seus jogos. Boas narrativas com um excelente poder de decisão dado nas mãos dos jogadores. Força para a Telltale!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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