Japão

Porque eu gosto de Medaka Box?

Uma bagunça com propósito?

Estava um pouco atrasado (uns 2 ou 3 capítulos) com os atuais capítulos de Medaka Box, mangá escrito por Nishio Isin, e ilustrado por Akatsuki Akira (cujo qual você pode saber mais sobre aqui), e depois de lê-los com avidez, e ter ficado ansioso para o próximo me perguntei a questão acima.

É realmente muito estranho a forma que o autor desenvolve as coisas no universo da série, até porque raramente as coisas vêm de uma origem plausível, ou fazem lá tanto sentido (Os puzzles do autor muitas vezes fazem muito mais sentido do que a própria história). Mas será que é preciso tudo fazer um sentido absurdo e ter uma coesão perfeita, ou grande?

Acho muito interessante a forma que Ishin conduz a história de uma forma totalmente desleixada em termos de coesão e roteiro, porém, sempre mantendo-se na linha tênue do que é relevável para o que tornaria tudo uma grande bagunça. Quer dizer, Medaka Box é uma bagunça, porém essa bagunça tem um propósito.

O propósito de fazer situações provavelmente difíceis de serem construídas, ainda mais levando-se em conta o fato de ser uma revista semanal com sistema de votação ferrenho que cancela ótimas histórias bem fundadas, simplesmente aparecerem na frente de uma protagonista que é basicamente feita como a melhor ferramenta de resolução de problemas de roteiro.

Medaka pode copiar e realizar qualquer coisa, seja com habilidades humanas ou os super poderes que o mangá nos apresenta a a cada ato. É mais um fato interessante que até cheguei a comentar no outro texto, os poderes são simplesmente algo que são fora de tudo aquilo que já vi.

E com isso o autor constrói, como um amigo comentou certa vez,  personagens que nunca são o que parecem, e é isso que os torna extremamente únicos e cativantes. Podemos pegar como exemplo um dos queridinhos de todos, Kumagawa.

O personagem mais popular do mangá é um perdedor incondicional, que nunca ganha nada ao final, ao menos que esteja junto de outros protagonistas, o que geralmente só lhe garante vitórias numa missão como um todo e nunca em sua parte específica. É interessante como um personagem desses ainda parece poder ganhar qualquer batalha que ele se mete no mangá, e os leitores já sabem o fato que sua perda é inevitável.

Voltando na bagunça com propósito, um dos outros é a metalinguagem feita de uma forma às vezes sutil, e às vezes escancarada. Foi a única vez que vi um rumor ser lançado de um balão de fala de um personagem, de forma fria, sem especulações  foi dito tudo em “alto e bom som”. E no final o que todo mundo achava que era a voz do autor dentro de um personagem (que afinal era uma teoria fundada, pois Ishin fez com que tudo levasse a crer que era), uma estréia de anime, tudo alinhado, era nada mais que um simples personagem que falou uma data por coincidência (?) mas não contava que a protagonista de um shonen pode mudar todo o rumo de um mangá.

Essa parte é deveras carregada com referências ao mundo ao redor do mangá, e a todo um gênero e filosofia (da Shonen Jump mais no caso). Quantas vezes não vimos um protagonista aparentemente morrer e minutos após tirar força sabe-se lá de onde e derrotar o chefão. Eu cachava que essa força vinha das mãos dos autores, mas o que eles não contavam que nem o personagem mais forte que eles puderam criar (que possuía infinitas habilidades), não foi páreo para a força imensurável de um protagonista de uma história shonen.

Acompanhar isso em tempo real foi uma experiência sensacional. Algo que empolgou bem mais do que as últimas revelações de grandes vilões ou transformações de protagonistas. E tudo culminou em um capítulo que foi de ponta a ponta sensacional, o fatídico 140, que alinhou todas as datas e provou porque Ishin é tão celebrado.

Passando pra outro ponto que me estimula bastante a leitura do mangá, são os puzzles que fazem com que a coisa beire um livro-jogo. Apesar de algumas sacadas realmente se restringirem mais a troca de palavras e formas de leitura que eu realmente não faço ideia, muitos outros são decifráveis pelo uso da lógica simples. Porém sempre que algo parece que pode ser resolvido com uma lógica simples o autor emenda uma resolução por um caminho não convencional.

É bem interessante que com os personagens mais apelões que já foram criados a aura de certo perigo ainda consegue ser mantida, mesmo que no final eu saiba que Medaka vai dar um jeito de resolver tudo.

Acho que são por essas razões que gosto tanto de Medaka Box, fora do comum, uma bagunça com propósito, talvez algo que só o Ishin consiga fazer numa Shonen Jump. É isso é um dos fatos mais incríveis, conseguir conduzir algo deste tipo na revista mais ferrenha em termos de competição do Japão. O que tinha tudo para dar errado em um “Battle Shift” lá no início se tornou uma das coisas mais legais que leio atualmente. Agora eu pergunto: será que ele planejava isso desde o início? Pelo menos em algum ponto o mangá podia ter essa virada?

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Rackor

Gamer de fliperamas aos consoles, passando pelo saudoso GB Color e seu Pokémon Yellow. Leitor de mangás, e dou preferência a estes ao invés de animes. Mais recentemente descobri as HQs, e desde então sou fã da trajetória de Geoff Johns em Laterna Verde, entre outros clássicos como Watchmen.
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