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Hal, de Umi Ayase | Bons conceitos, falhas na execução (Impressões)

Quando escrevi sobre The Wedding Eve aqui no site ano passado estava deslumbrado com o formato de mangás de volumes únicos que estavam chegando ao Brasil. Com o passar dos meses outras obras de edição única também foram lançadas. Obras como O Homem que Foge, Nijigahara Holograph e The God’s Lie. Hoje percebo que nem todo projeto concebido para durar um único volume consegue atingir a máxima qualidade que muitas vezes se faz necessário para contar uma curta, porém boa história. Hal, recém lançado pela Editora Panini, é um bom exemplo disso.

Talvez seja o formato como se idealizou essa obra, que é uma adaptação de um longa animado também chamado Hal. No AniDB é possível encontrar algumas informações a seu respeito. Infelizmente não tive a disponibilidade de assistir a animação, apesar dela existir por aí, legendada entre os quadrantes do submundo dos fansubs (basta procurar). Entretanto a versão em mangá não é um complemento do filme, mas uma adaptação. Não é necessário ver um para entender o outro.

Hal conta a história de um robô que se disfarçou de humano para ajudar um outro humano que perdeu a vontade de viver após ter perdido seu grande amor em um terrível acidente. É uma sinopse deveras interessante, especialmente para quem curte histórias com leves toques de ficção científica, sobre tecnologias do futuro e até certos dilemas morais sobre até onde um robô é só uma máquina e em que momento essa máquina talvez passe a ser algo mais. Só que isso é só um conceito que potencialmente poderia ser instigante. O mangá peca quando precisa executar estes conceitos.

Inicialmente, após ter lido apenas o primeiro e segundo capítulo da edição, estava com a impressão de que o mangá parecia brincar um pouco com a velha história do Pinóquio, onde ao invés de boneco de madeira querendo virar menino de verdade, havia um robô de metal que ganhou um corpo de humano querendo encontrar o amor dentro de si. A obra no fim apenas brinca superficialmente com isso, sem nunca se aprofundar verdadeiramente ou ser polêmica a ponto dar o impacto na qual vinha esperando que houvesse.

Outra questão que me pareceu falha dentro do universo aqui criado diz respeito ao mundo do futuro que poderia ser o nosso presente com apenas algumas tecnologias mais modernas. Robôs existem e vivem em harmonia entre os humanos. O começo da obra diz isso, mas em nenhum momento o leitor é apresentando a outros robôs dentro da história. A parte do futuro dentro da história some depois de um tempo, voltando apenas quando é conveniente existir, como um botão que funciona como câmera de vídeo ou celulares transparentes que podem ver o preço de qualquer coisa (o que é algo muito incrível, achei que em certo ponto essa tecnologia revelaria algo importante ao final da trama, e teria sido incrível se tivesse mesmo).

A obra se abdica destes conceitos que a tornaria realmente única e interessante para contar a história do amor e perda de um casal jovem, onde um está um luto pela morte do outro. E essa é a parte realmente clichê, existente em trocentos e tantos outros mangás.

Existe alias a questão da obra ter um plot twist ao final de sua história. Algo não é o que aparenta ser e ao voltar pelas páginas existem pequenas e sutis dicas a respeito disso, entretanto há também outros pontos que contradizem narrativamente esse ponto de ruptura da trama. A surpresa da reviravolta talvez agrade alguns leitores, especialmente quem se apegar ao conto de amor em si da trama, mas pra mim foi exatamente isso que estragou a obra.

Não que eu não goste de ser surpreendido por um plot twist (seja ele bom ou ruim) que não tenha percebido estar chegando – e de fato não percebi – porém essa reviravolta estragou justamente a expectativa que tinha com os conceitos que a obra estava tentando trabalhar em seu início. Eu me apeguei ao lado máquina da trama e não comprei muito o lado humano. De uma certa forma a obra acaba se focando totalmente no aspecto humano em seu final, como se ao fim a máquina fosse apenas um meio para o fim, como uma mera muleta na qual o debilitado precisasse para voltar a ficar em pé. Como amante de uma boa ficção científica, acho isso lamentável.

E o universo criado aqui para contar a história de Hal é cheio de pequenos detalhes e histórias de outros personagens que são apresentados superficialmente, sem que o leitor chegue de fato a conhecer todos. Há os velhinhos na casa de repouso, tem o amigo que aparece como má influência para Hal e até  mesmo o doutor com ar de Dr. Willy de Mega Man que torna Q-01 um humano (sem que essa tecnologia jamais seja explicada ou posto em cheque suas questões morais e éticas que parecem envolve-la).

Hal, adaptado para mangá pela autora Umi Ayase não é de todo modo ruim. Infelizmente está longe de atingir um potencial que ele claramente parece possuir. No fim é mais um daqueles títulos com uma historinha de amor juvenil, de superação da perda e do trauma que isso causa na vida daquele que vê seu amor partir para sempre. Por si só isso já cria um tema pesado e forte para certas pessoas, mas não significa que tecnicamente a qualidade do roteiro é impecável. Ao menos pra mim não pareceu ser.

A maior impressão que tive ao terminar a leitura do mangá é que esta obra não deveria ter justamente ser lançado como uma obra de volume único. Hal merecia mais alguns volumes, mais alguns atos, ter alguns de seus conceitos expandidos para trazer mais reflexões ao leitor da obra. Trabalhar e aprofundar melhor o conceito homem e máquina, os personagens e o mundo a sua volta. Talvez assim o plot twist ao fim se tornasse algo completamente desnecessário.

O traço da autora é bonito e caprichado e a edição da Panini aqui no Brasil está bonitona, com um preço acessível. Ao fim Hal é uma obra fraquinha, mas não é de todo mal. Por ser uma obra de edição única acho vale dar uma olhada, como uma leitura sem grandes aspirações, apenas pelo entretenimento puro e simples.

Ficção Científica instigante, porém mal aproveitada
História sobre morte, trauma, perda e superar tudo isso
Plot twist questionável, talvez até desnecessário
Edição física possui boa qualidade gráfica

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e do Ponto de Checagem (2014). 32 anos, formato em Direito, vivendo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Em busca de novos apoiadores que curtam estes projetos e a viabilidade deles crescerem!
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