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Análise | Battletoads (2020)

Disponível para o Xbox One e PC

Battletoads está de volta, trazendo muito do charme peculiar do jogo lançado em 1991, entretanto arrisca bastante ao deixar de lado alguns dos aspectos que são pilares da obra original e que, provavelmente, não funcionariam bem nos dias de hoje. Pode-se dizer que trata-se de uma sequência que moderniza a franquia, até porque nunca houve a real necessidade de reinventá-la. Seu lançamento acontece hoje, 20 de agosto, para Xbox One, Windows 10 e Steam. Chega também, desde já, ao catálogo do Xbox Game Pass (Console & PC).

O título é um produção da DLala Studios, um estúdio independente localizado no Reino Unido, a qual talvez você não tenha ouvido falar muito até tomar conhecimento deste projeto, mas eles estão na indústria dos jogos há 8 anos, trabalhando com grandes gigantes do mercado. Entretanto, me parece que Battletoads é o maior projeto a qual o estúdio se envolveu desde a sua criação. Ao menos é o que deu a maior visibilidade. Justificado dado o caráter icônico do título. Na supervisão de tudo está a Rare Ltd, é claro.

Este novo Battletoads, que não é um remake e nem mesmo um reboot do clássico dos anos 90. É, na verdade, uma espécie de (quase) sequência, ainda que não precise colocar um número em seu título oficial. Este novo jogo respeita a construção de universo do jogo original, porém segue adiante com suas ideias próprias, adicionando ainda mais personalidade (e humor) aos personagens e ao mundo ao redor destes protagonistas. Pode-se dizer tranquilamente que mantém muito do DNA original em termos de gameplay, em uma metamorfose entre título beat ’em up e diversos outros gêneros menores, que muitas vezes surgem aqui ou formato de pequenos mini games ou em estágios mais elaborados, afim de manter a dinâmica de situações e cenários que o original sempre possuiu.

Passado impossível de replicar

Antes de entrar nos méritos do novo Battletoads, quero reservar um pequeno momento de reflexão para dizer o quanto o Battletoads de 1991 me parece impossível de ser reproduzido de uma forma funcional no modelo atual dos jogos eletrônicos. É um título que olhando de forma mais crítica hoje em dia, não funciona mais. Veja bem, ele ainda é um indiscutível clássico dos videogames, mas extremamente peculiar ao período histórico a qual pertence.

Isso ficou muito evidente pra mim algumas semanas atrás, quando resolvi matar a saudade do título, a qual pode ser conferido por qualquer um através da coletânea Rare Replay. Este primeiro Battletoads é um jogo feito para frustrar e matar o jogador a qualquer momento, em diversas situações a qual seja quase impossível reagir em uma primeira tentativa do perigo apresentado. Não é à toa que é considerado um dos jogos mais difíceis da história dos videogames.

É um título que possui portais (warps zone) que permitem o jogador pular fases inteiras afim de conseguir avançar dentro do jogo – e muita gente só conseguia vencer o jogo dessa forma lá na década de 90. Eu mesmo nunca terminei Battletoads original. Sem apelar para cheats ou a função de rebobinar do Rare Rapley, tenho a certeza absoluta que não tenho habilidade para tal (este vídeo parece deixar isso bem claro).

E por que trazer isto à tona aqui nesta análise? Porque a primeira coisa que você deve pensar sobre qualquer ideia de um jogo de Battletoads é se ele será tão difícil, desafiador ou frustrante quanto sua icônica versão dos anos 90. Ao menos alguma parte dos jogadores (mais velhos) irão pensar isso. Mas veja só, um Battletoads assim não funcionaria hoje em dia. Esqueça isso. Um jogo extremamente difícil que poucos irão finalizar não é algo que se busca no desenvolvimento dos games modernos. Dadas pontuais exceções, é claro. E até mesmo os jogos muito difíceis, como (talvez) Dark Souls, ainda tem um conjunto de outros elementos que o tornam atraente afim de que essa dificuldade escalada funcione como carro chefe do produto. E não acredito que o Battletoads original tenha algo nesse nível de genealidade. Ele era dificilmente sacana simplesmente porque os jogos dessa época precisavam disso para perdurar nas mãos dos jogadores.

O original sequer é um longo game. Há speedruns a qual excepcionais jogadores que o encerram em menos de uma horaé de se aplaudir qualquer um que finalize o jogo original na raça . O fato é que nossa memória afetiva coloca Battletoads como um jogo muito querido porque ele tem muita personalidade, uma incrível trilha sonora, muito charme e uma excelente apresentação inicial em seus primeiros estágios.

Portanto, se você chegou aqui querendo que esta versão de 2020 de Battletoads replique o exato sentimento de frustração frente ao desafio da dificuldade do original, pode esquecer. Não estou dizendo que o título é fácil demais. Estou dizendo que ele é jogável até o final, sem momentos em que você vá se sentir travado e com aquele sentimento de que será impossível ir adiante. Não é esta a direção dada nesta nova versão. Você vai morrer? Sim, vai. Um monte de vezes. Mas não o suficiente para querer tacar o controle na parece – se bem que eu tive um único momento assim com esse novo jogo… mas foi algo que bastou respirar, tomar um pouco d’água e tentar mais algumas dezenas de vezes para seguir adiante, mas decididamente em nenhum momento achei que seria impossível continuar.

Modernizar e adaptar para uma nova linguagem

O aspecto que mais me chamou atenção em Battletoads (e agora estarei sempre me referindo a versão de 2020) foi exatamente como a Dlala conseguiu modernizar esse universo sem que fosse necessário reinventar a roda e mudar os pilares da franquia. A Rare, por exemplo, errou feio quando achou que Banzo-Kazooie precisava ser reinventado na geração passada, resultando no inconsistente Banzo-Kazooie: Nut & Bolts. Tanto que tem fãs (inclua eu aí) até hoje esperando o verdadeiro Banzo-Kazooie 3. Battletoads segue fiel à fórmula original, mas readaptado ao mundo moderno dos jogos eletrônicos.

Sua direção de arte, por exemplo, segue muito do estilo das animações populares atuais. Consigo ver claramente um pouco de inspiração de Rick & Morty na ambientação ficção científica apresentado no jogo. Assim como os diálogos e tom de humor segue afiado com produções atuais, como a nova versão de DuckTales, Amphibia e A Casa da Coruja (curiosamente são produções Disney). Rash, Zitz e Pimple agora possuem personalidades totalmente distintas um do outro, dando um gigantesco carisma a cada um. Agora finalmente é possível distinguir um do outro, algo que nunca consegui fazer no passado, exceto por Rash, graças ao óculos escuros e suas participações especiais em outros jogos, como Killer Instinct.

Também é interessante como a Dark Queen, vilã do jogo original, passou por uma transformação de aparência física e figurino para ressurgir aqui como uma vilã muito mais cartunesca e divertida. Sua versão clássica é exageradamente sexy (possivelmente inspirada em Jessica Rabbit) e nos tempos atuais já não soa tão politicamente correta assim. A nova Dark Queen não precisa  ser sexualizada para chamar a atenção dos jogadores. Ela funciona simplesmente porque é uma personagem forte e divertida de se ver contracenando com o trio principal. Isso lhe deu mais personalidade, ao invés de se construir uma personagem apenas baseado em um visual (hoje) considerado apelativo.

E Battletoads, em uma grande parte do tempo, soa como um grande filme de animação. O jogo possui, surpreendentemente, muitas cutscenes entre seus estágios e mini games. O jogo não tem medo de pausar seus gameplay para criar uma divertida narrativa que coloca os Battletoads em uma jornada para restaurar sua heroica glória perdida. Essa construção de animação e narrativa é tão bem feita, que adoraria que algum canal de TV o transformasse em uma série animada. Seria fantástico.

Significa que a história do novo jogo é perfeita? Não chega a tanto. Mas é boa o suficiente ao trabalhar muito bem com os clássicos sapos (que podem ou não serem irmãos, eles ainda precisam falar mais sobre isso), com bastante piadas (que me fizeram rir em diversos momentos) e boas maluquices de situações imprevisíveis a quais eles se metem. O jogo consegue criar atos que trabalham individualmente suas personalidades, enquanto a Dark Queen surge como uma ponta interessante de toda essa trama, com sua própria narrativa construida ao longo de toda a aventura.

Minha crítica a trama fica apenas a pontuais momentos. Acho que o ato três do jogo se arrasta, tanto narrativamente quanto mecanicamente, de uma forma além do necessário. Também não sou grande fã da dupla de vilões finais do jogo, que são muito Crash Bandicoot. Apesar de que o jogo inteiro não tem vilões muito interessantes ou marcantes, exceto um ser que se assemelha com um grande tronco de bigode (esse cara achei divertido e interessante). Dá para notar que a história foi escrita para favorecer os protagonistas, sem tempo para trabalhar muito bem os coadjuvantes que vão acabar esquecidos no tempo.

Outro detalhe, a qual acredito que um update futuro deva consertar: não dá para pular cutscenes, nem mesmo em fases em que se vai jogar uma segunda vez. Parece uma decisão antiquada isso. Há algumas cenas que são realmente longas. Se o jogador já a assistiu uma vez, e não quer ver uma segunda vez, nada mais justo que permitir pulá-la. Também fiquei meio incomodado com o formato das legendas, que colocam uma enorme faixa preta ao fundo do texto da legenda, escondendo assim parte da arte das cenas animadas. Seria muito mais elegante uma faixa fosca, afim de não perder parte da arte ao fundo. Por sinal, Battletoads chega apenas legendado em nosso idioma, sem apresentar uma dublagem em português.

Por falar nisso, o trabalho de dublagem em inglês dos personagens está fantástica. Todo o jogo possui conversas entre os personagens em áudio, mesmo quando os personagens conversam por balões de quadrinhos no meio dos estágios. Ainda assim há o áudio das vozes. As demonstrações realizadas com o título ano passado não demonstravam isso. Felizmente o estúdio decidiu adicionar as vozes. Faz toda a diferença, acredite.

Metamorfose constante

No que diz respeito as mecânicas dentro da proposta do jogo, este Battletoads segue muito de sua fórmula original, ao colocar o jogador em diversas situações de cenários e jogabilidade, mas sempre mantendo a pancadaria como aspecto principal da aventura. O jogo original de 1991 é assim, por mais que as vezes a gente não se lembre direito – lembre-se que começa como uma fase de lutinha, depois passa para uma fase em que se desce por uma corda, depois tem a clássica fase da motinho que exige agilidade, para depois uma de gelo com muitos aspectos em plataforma para se escapar de diversos espinhos, tinha aquela em que se escalava cobras gigantes e assim por diante. A versão clássica é muito dinâmica e nunca fica tempo demais em uma mesma ideia. O novo Battletoads segue muito dessa energia.

Este novo jogo divide-se em 4 atos narrativos, divididos em diversas fases diferentes. O início do jogo é muito pancadaria beat ’em up (briga de rua), com os sapos andando em uma ambiente com diversos inimigos a serem socados. Esse segmento do jogo começa bem morno, mas vai melhorando conforme o ritmo do jogo se solta pelas fases nesse formato. Leva-se um tempo até que o jogador se habitue com todas as mecânicas e que o jogo apresente todas suas ideias nesse tipo de situação. A fase inicial, aquela que foi apresentada parcialmente em demonstrações ano passado, certamente é a fase mais fraca dos cenários de pancadaria. É uma fase que não apresenta o título tão bem quanto a fase inicial da versão clássica historicamente fez no passado. No caso desta nova versão, o título de mostra mais consistente após vencido essa fase tutorial.

Na parte das batalhas, bastante coisa mudou, deixando a simplicidade do original, cujo o NES tinha poucos botões disponíveis em seu no controle, para algo muito mais complexo e dinâmico dos atuais controles. Há mais situações de combos. Há um combo normal, como no original, mas também há comandos de socos potentes e um soco que manda o inimigo para cima, permitindo que a pancadaria acontece também de forma aérea. Nos gatilhos, os jogadores vão encontrar anda mais possibilidade, pois agora a língua dos sapos podem laçar inimigos, trazendo-os para perto do jogador ou até mesmo lançar seu personagem para um outro plano da tela, indo para o fundo do cenário em um estilo muito semelhante ao que Rayman Origins fez quando lançado alguns anos atrás. Os sapos ainda podem cuspir nos inimigos, mantendo-os presos por alguns preciosos segundos em meio as caóticas batalhas.

Vale apontar também que os inimigos surgem em um número muito maior, e de uma só vez, do que em relação ao jogo original. Coisa de seis a sete inimigos, presentes em situações de arenas, em que o jogador precise vencer diversas as ondas de diferentes oponentes, até que a fase possa avançar novamente. As mosquinhas estão de volta, sendo liberadas quando certos inimigos são derrotados. O jogador pode a qualquer distância comê-las para recuperar um pouco da sua barra de saúde. O que não está de volta nas mecânicas de combate? Aquele comando de colocar duas vezes para frente e fazer o sapo correr para dar um potente golpe que eliminava o inimigo em um único golpe. Seu equivalente aqui seria carregar um botão que o faz dar o equivalente ao clássico chutão, na contrapartida que nem sempre os inimigos vão esperar o jogador convenientemente carregar o golpe.

Também é importante apontar que uma das críticas que o jogo recebeu nas demonstrações realizadas ano passado, de estar meio lento na hora destes combates, não parece mais existir na versão finalizada e lançada. Este Battletoads tem um combate muito veloz. Os comandos e combos saem numa velocidade impressionante. Além disso, um comando de esquiva, que é realizado por meio de um veloz dash é inacreditavelmente eficiente para sair de quase todo e qualquer perigo, pois nestes milissegundos do movimento seu personagem fica invulnerável. Outro detalhe importante: cada sapo tem seu próprio ritmo. Rash é o personagem balanceado, enquanto Pimple é lento, mas causa mais dano, e Zitz é super rápido para realizar combos e se movimentar por toda a tela por meio da esquiva, praticamente se teletransportando quando precisa sair de um enrosco.

Outro ponto que este Battletoads manteve em relação ao título original, mas elevando a um grau que combina muito com o humor criado para essa aventura, diz respeito as habilidades transmorfos (mudar sua forma e até mesmo aparência) do trio protagonista. Eles realmente podem transformar a sim mesmos ou qualquer parte do corpo em qualquer coisa. Algo que, por sinal, nunca foi explicado direito o porquê deles poderem fazer isso (mas abrace a ideia e não questione). Soa como algo que no original parecia visualmente divertido aplicar as ação da jogabilidade (porque sim) e que aqui extrapola (de forma bem inteligente) ainda mais esse conceito. Então não estranhe o fato de Rash ao pular e acionar um certo comando, se transformar em um tubarão e mergulhar até o chão, ou dele conseguir “invocar” uma máquina de fliperama para causar dano aos inimigos enquanto joga, com o dano adicional da máquina explodir ao final do combo. É divertido, no mesmo nível de que o original o fazia ter enormes chifres de bode para eliminar inimigos, chifres estes que desapareciam logo que o comando finalizava.

Passado pelo aspecto das fases de combate, há todo um mundo de mini games e fases adicionais que misturam diversos outros elementos de diferentes gêneros. Na parte dos mini games, existem diversas situações bem simples, como uma estranha partida de pedra, papel e tesoura com torradeiras, instrumentos musicais e pelúcias, ou uma situação de massagens em alienígenas, realizando os comandos que surgem na tela do jogo. Há um momento com mini games de jogos olímpicos que também é ótimo. São situações simples, mas cômicas e divertidas dentro do contexto narrativo que o jogo vai apresentando. É até uma pena que estes mini games não se desenrolam em modos extras de jogo, dedicado a partidas multiplayer apenas para se jogar ideias diferentes destes cenários. Até dá para rejogar estes mini games no modo seleção de fases, mas como não dá para pular as cutscenes, fica meio cansativo repeti-los. Fora que um modo extra com estes mini games poderia apresentar outras ideias dentro de suas mecânicas.

E então há as fases maiores, completamente diferentes do aspecto beat ’em up. A principal dessa modalidade são as fases de agilidade, como a clássica fase da motinho (Turbo Tunnel). Aqui esse icônico momento da franquia muda sua perspectiva da visão lateral para uma visão em terceira pessoa com as paredes vindo em direção a tela. Uma perspectiva frontal. Dá a sensação de ser mais fácil do que o jogo original esse aspecto, além de que em certos momento, me passou a impressão de que o cenário não passa a sensação de velocidade que talvez devesse passar. Entretanto em nenhum momento essa nova versão deixa a desejar. O jogo apresenta duas fases de motinho, sendo a primeira com diversos checkpoints, para facilitar a vida do jogador, porém a última, próxima ao final do jogo, é sem checkpoint e o jogador deve finalizá-la sem morrer. Essa fase foi a que precisei respirar para não perder as estribeiras. Foi uma sensação ótima quando penso no mesmo sentimento que tinha com a Turbo Tunnel original.

Há também uma outra fase de agilidade que tem uma pegada diferente, com um escorregador. Essa fase é realmente muito bem estruturada, com muita plataforma para saltar e botões no controle para apertar na hora exata. Se o jogador não quiser os colecionáveis da fase, dá para passar mais tranquilamente, entretanto ir pelos percursos mais desafiadores é realmente de fazer você se ajeitar no sofá para conseguir. Foi muito divertido passar por esse estágio. Parabéns aos desenvolvedores por ter pensado em algo tão legal, e que contrata muito bem com o sentimento de diversidade e criatividade que o Battletoads original possui.

Em menor escala de diversão, há o já mencionado Ato 3. Esse ato praticamente se divide em fases de plataforma, que mistura algo parecido com Rayman Origins, mas com a roladinha clássica dos tempos de outro de Donkey Kong Country. Me impressionei em como a equipe que montou essa fase conseguiu com perfeição reproduzir esse movimento tão característico dos clássicos do DK, até mesmo com aquele tempo em que se fica no ar antes de realizar o salto. O único mal deste cenário de fase é que ele se repete mais do que o necessário no jogo. São três fases que poderia ter sido condensadas em uma única fase. Faltou uma maior variedade nestas fases, a ponto de tornarem diferentes entre si.

E aí, ainda nesse ato três, estas fases de plataforma se intercalam com três estágios de shoot ’em up, estilo Space Invaders. Neste ponto não tenho muito do que reclamar. Genuinamente me diverti nestes estágios, ainda que tenha que admitir que a variedade aqui poderia ter sido melhor trabalhada. Nem mesmo o cenário fixo ao fundo muda de uma fase a outra. Também esperava um chefão final legal para cada uma destas fases, porém apenas a primeira tem um chefe que realmente que vale o destaque.

O que me surpreendeu de uma forma inesperadamente divertida foi o mini game que se encontra no final desse ato, que emula um pouco do conceito do jogo independente chamado Keep Talking and Nobody Explodes. Em uma tela fixa, o jogador tem que lidar com um enorme painel de comando de uma nave espacial e realizar diversas ações nesse painel, em uma ordem estabelecida de acordo com alguns símbolos apresentados na tela superior. Admito que demorei horrores nesse mini game, até conseguir entender todos os desafios e conseguir executados dentro do apertado tempo estabelecido. Novamente é essa coisa da fórmula original sendo modernizada para algo pontual dos jogos de hoje. Brilhante.

Por fim, não querendo dar muitos detalhes do ato final, que retorna ao belo ritmo que o jogo estabelece então do ato 3, tenho que dizer que gosto de como o jogo vai chegando ao seus finalmentes. Gosto da fase em que o jogador deve descer por um túnel o mais rápido possível – ainda que esta fase não tenha o charme da segunda fase do jogo original. Fiquei alucinado com a fase final da motinho. E o combate final? Ainda que nada épico, serve ao seu propósito. O ato 4 mantém a dinâmica e diversão colocada na fórmula, ainda que não se alongue tanto quanto os demais atos. Dá a impressão de que o jogo poderia se esticar um pouco mais, ma que talvez o tempo de desenvolvimento estivesse se encerrando e o jogo não poderia continuar no forno por mais algum tempo. Esse ponto, de que já estava hora do título ser lançado e nem pensar em adiá-lo, também pode ser estar relacionado com o próximo ponto: seu multiplayer.

Três sapos em um único sofá

Battletoads não poderia existir como um jogo unicamente single player. Afinal, dentro de seu DNA está um pedacinho genético de multiplayer cooperativo. Se no clássico isso era realizado com apenas dois jogadores, a nova versão permite três jogadores, um para cada personagem principal. O ponto que talvez lhe deixe chateado é que o título apresenta apenas um multiplayer local. Sem funcionalidade de cooperação online. Que chato, não? Em tempos em que as pessoas estão isoladas em meio a pandemia, não poder chamar seu amigo baladeiro para sentar ao seu lado no sofá para uma partida de Battletoads pode fazer total diferença.

Essa também foi uma crítica que fiz recentemente quando analisei Streets of Rage 4. Porém neste caso, fiquei chateado do jogo não permitir um online com quatro jogadores – porque suporte a dois jogadores o título conseguiu. No caso de Battletoads, nem isso. Zero modalidade online. O que dado o suporte da Microsoft e seus poderosos servidoes, de todo o esquema de Xbox Game Studios, da Rare que mantém um grande oceano de piratas online com Sea of Thieves… me parece uma tremenda mancada que não tenha se conseguido colocar um multiplayer coop online para o novo Battletoads.

O que me leva ao ponto mencionado alguns parágrafos acima: talvez tempo tenha sido um dos problemas aqui apresentados. Soa como algo que não deu tempo de estruturar. O que me faz levantar a pergunta se o título não poderia vir a receber isso mais a frente, por meio de uma atualização gratuita. Seria algo que a equipe deveria estar pensando em fazer, e talvez até mesmo anunciar o quanto antes. Certamente a comunidade apreciaria bastante. Mais uma vez o Thales (meu filho de, agora, quase 8 anos) ficou animado por jogar Battletoads comigo, mas ficou chateado de saber que não poderia jogar com os amiguinhos dele online.

E já trazendo o aspecto da criança, Battletoads é um título que pode ser apreciado pelos pequenos de qualquer idade. Seria mais divertido para elas se o jogo estive dublado, já que o humor não é improprio a essa faixa etária. Sim, vai ter uns palavrões aqui e ali, mas o jogo sabiamente faz o som de pip (o que dá um tom certo de comédia), assim como uma certa personagem tem sua mão censurada ao fazer um gesto nada educado. O bacana é que dada a dificuldade do jogo em certos momentos, além de uma modalidade super fácil, os jogadores realmente ruins podem ligar um modo de invencibilidade no menu de opções do jogo. A criançada que se sentir presa em algumas fases, como as de motinhos, podem facilmente atravessá-las graças a esse recurso.

Já outro aspecto do multiplayer que é preciso mencionar, diz respeito ao seu balanceamento. O título se posiciona mais difícil quanto mais jogadores estiverem jogando em modo cooperativo. No single player, quando se morre, o jogador automaticamente assume o comando de outro personagem, dando àquele que morreu um tempo de espera de 20 segundos para retornar ao jogo. Isso significa que só há um Game Over se você morrer com os três personagens em menos de 20 segundos antes do primeiro que caiu retornar. No multiplayer essa regra muda consideravelmente.

No cooperativo se um dos jogadores cair (se você estiver em dupla), é possível assumir o terceiro sapo que não se está utilizando, enquanto se espera 20 segundos até seu personagem ficar disponível novamente. E claro, se estiver com três jogadores, quem morreu tem que esperar 20 segundos pra retornar. O ponto é que, seja com três jogadores, ou até mesmo com dois, se todo mundo cair ao mesmo tempo, é Game Over e o jogo reinicia no último checkpoint (que são bem generosos). Ao jogar com meu filho, passamos por diversos momentos em que morremos juntos, isso acontece com bastante frequência.

Quanto um personagem é nocauteado no multiplayer, o jogador ainda vivo tem alguns segundos para ir até esse personagem e revive-lo. E é nesse momento que mora o perigo, pois se ele for nocauteado tentando reviver o parceiro, já era, vai ter que recomeçar do checkpoint.

Vale tecer elogios ao sistema de checkpoints de Battletoads. Aqui não há vidas, então pode-se morrer à vontade. E o melhor é que não há loadings. O jogo recomeça imediatamente após os jogadores morrerem. Seja em fases normais ou nas fases aceleradas de motinho. A trilha consegue se manter, sem grandes interrupções. É muito suave a transição de morrer e volta. E nunca se volta demais. Passou de um ponto importante? O jogo sempre faz um checkpoint. Seus amigos morreram em fases de velocidade ou plataforma? Ao passar por um checkpoint, eles retornam de imediato, sem precisar esperar os 20 segundos de renascimento. Esse é outro aspecto de boa dinâmica e ritmo que o título oferece.

Considerações finais

Battletoads (2020) é um título cheio de boas energias. É difícil colocá-lo lado a lado com sua versão de 1991 e dizer que tem o tamanho do significa que o jogo original teve, até porque aqui ele está apenas mantendo a irreverência do jogo original, sem reinventar o mundo dos videogames, o que acredito ser um ponto positivo. Clássicos precisam parar as vezes de quererem reinventarem seus mundos e apenas entregarem aos jogadores a diversão que suas primeiras versões sempre entregaram. E é isto que felizmente acontece aqui.

Talvez a questão do nível de dificuldade em relação ao original ainda seja um ponto de reflexão entre muitos jogadores das antigas. Mas sinceramente não acho que seja algo que mereça tirar créditos da nova versão. Alias, há um modo de dificuldade acima do normal, chamado inclusive de Battletoads. Os inimigos são mais resistentes e o dano é maior, mas fora isso não há novos elementos, o que não me incentivou tanto assim a me dedicar a esta modalidade após ter terminado o título no modo normal (chamado Sapo). O valor de replay do game certamente poderia ser aprimorada, já que é um título que se termina em aproximadamente 5 horas.

Enfim, não é um título perfeito, entretanto seus tropeços em nada estragam a experiência que o jogo quer entregar. Vale também apontar que não é um título que está tentando se vencer como uma triplo AAA de 60 dólares. Trata-se de uma iniciativa quase com ares de jogo independente, que está sendo vendido lá fora por 19 dólares, e que aqui se traduziu em honestos 75 reais. Menor do que a atual cotação do dólar. Obrigado Microsoft! E na boa, se fosse um título de 29 dólares, ainda acharia um valor justo pelo conteúdo apresentado.

Além disso, acredito que alguns destes tropeços – como não deixar pular animações, legendas com enormes faixas pretas e ausência de modo online – poderiam vir a ser aprimoradas por meio de patchs e atualizações gratuitas. Até mesmo uma modalidade para se brincar com os muitos mini games do jogo seria bem vindo. Se o título conseguir ser um sucesso, e espero que seja, as portas para possibilidades maiores certamente irão se abrir. Vale lembrar que Ori and the Blind Forest recebeu por uma edição definitiva, assim como Super Lucky’s Tale também foi revisada. O mercado atual permite iniciativas assim. E independente de algo assim acontecer ou não, este Battletoads já entrega uma experiência completa e muito divertida de ser testada neste exato momento. O que vier no futuro, se vier, será lucro.

E claro, que esta não seja uma iniciativa isolada e que os fãs tenham que esperar mais duas décadas por um próximo título. O jogo não deixa gancho para uma sequência, mas brinca, em certo momento, que seria ótimo ter novas aventuras. Certamente a franquia merece, especialmente agora que finalmente encontrou uma forma de conversar com toda uma nova geração de jogadores. Não aproveitar isso seria uma grande burrice. E posso dizer mais uma coisa? Esse novo Battletoads faria um sucesso enorme se a Microsoft o permitisse sair no Nintendo Switch. E tal como aconteceu com Banzjo-Kazooie, seria épico ver Rash, Zitz e Pimple como convidados especiais do Super Smash Bros. Ultimate. Será que ainda dá tempo? Putz, alguém faça isso acontecer.

Antes de encerrar a análise, dentro destes apontamentos finais, ressalto elogios a trilha sonora, que pode ser ouvida no Spotify. Gostei dos novos arranjos musicais, mas certamente a trilha clássica ainda tem um forte impacto nesta nova versão. E foram feito belos arranjos em algumas delas, como a faixa da Turbo Tunnel. Não sou muito de parar para ficar analisando a parte sonora, exceto quando estas me chamam a atenção, o que aconteceu aqui.

Battletoads (2020) tinha essa dificílima missão de honrar a memória de um dos mais icônicos jogos da história dos videogames. Se ele conseguiu, o tempo dirá. Parece ser um jogo que pode dividir opiniões, o que nem sempre é ruim. Certamente há uma velha guarda que odeio essa direção de arte das atuais animações estilizadas e com um humor super exagerado, mas é também algo que a geração mais nova adora. Gosto que os desenvolvedores tomaram uma iniciativa de não querer agradar a gregos e troianos. Há sim muito da fórmula original aqui, entretanto está dentro de uma embalagem que conversa totalmente com os jogadores de hoje, o público a qual precisa passar a ser fã de Battletoads. Isso é inteligente. Se a franquia vingar, haverá um futuro para brincar mais com passado. Pra hoje, é importante demais pensar no futuro. E futuro é o que mais tem aqui. Jogue Battletoads e me diga se estou errado.

 

Galeria

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Dando uma nota

Battletoads retorna tão criativo quanto sua fórmula original - 9.5
Jogabilidade está afiada, combate ficou veloz e flui muito bem - 9
Multiplayer local é bem divertido, porém faz desejar por um modo online - 8.2
Boa variedade de fases e mini game, dá ritmo e boa dinâmica a aventura - 8.8
Turbo Tunnel está de volta e ficou muito natural em sua nova perspectiva - 9
Localizado em português com legendas, com uma incômoda faixa preta (meio deselegante) - 7.5
Não chega perto da dificuldade do clássico, o que é algo discutivelmente positivo - 8

8.6

Ótimo

Battletoads (2020) é uma incrível reapresentação de um clássico dos anos 90. Super criativo, belíssimos visual e mantendo a fórmula e dinâmica de variedades de situações do jogo original, esta nova versão/sequência consegue manter a diversão e o interesse do jogador por toda sua aventura. Tem tropeços, mas nada que atrapalhe a experiência como um todo. Fica melhor ainda se puder jogar em modo cooperativo com outros jogadores!

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Thiago Machuca

Fundador e editor do Portallos (2008) e criador do saudoso (e extinto) Fórum NGM. Tenho 35 anos, sou formato em Direito, e vivo desde sempre no interior de São Paulo (Vale do Paraíba). Casado e já papai. Games, quadrinhos e seriados são uma paixão desde a infância. Gosto de escrever e sempre estou sem tempo.
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